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Ao mestre, com amor por kiko@bom

Nesta quinta-feira (02), faleceu Manoel de Oliveira, aos 106 anos, um grande diretor português, autor de trinta e duas longas-metragens. O Backstage presta sua homenagem com a crônica belíssima de kiko@bom, do nosso site parceiro H-Cine:

"Escrevo para ti hoje. Tão velho estás, Manoel. O que dizem os teus olhos, cisudos, que já viram tudo? Viram guerras, duas grandes guerras, viram fogo, viram ódio, viram vida. Foste avô, bisavô, não só de sangue, mas de nós. De mim, principalmente. 
Eu sei o que os teus olhos velhos dizem: eles dizem cinema, dizem-me a mim. Nunca te perdoarei por partires, a um passo da imortalidade, com 106 anos mas calculo que seja o ciclo natural da vida. E eu que pensava que tu eras mais que a vida. Mais do que a natureza...

Nunca viveste como o danado, foste até um humilde símbolo para o teu país e para mim. Projetaste Portugal na grande tela do mundo com os teus filmes e contribuiste para mim como poucos. Não tenho palavras para agradecer, de facto, só tenho filmes. Mas acho até que chega pois para a tua vida chegou. É que filmaste até ao fim, como teu desejo e deste de ti a mim. Mas além disso viveste até ao fim e admiro profundamente isso, porque me amaste incondicionalmente nos teus 106 anos. Mais de um século de vida, 90 anos de carreira e tantas histórias ainda para contar. Mas descansa, Manoel.

Fica descansado, porque tudo o que querias ainda fazer será, eventualmente, feito. Mas honestamente, pouco importa. Esquece isso. O que importa é o que deixaste. Deixaste cultura, deixaste paixão, deixaste imagem. Foste um senhor dela e criaste tantos filhos sem sequer dares por isso. Eles também não devem ter reparado, estavam demasiado ocupados com os 102 minutos de Aniki Bóbó e só notaram em ti quando o teu nome desceu nos créditos. Não é só lá que pertences, embora tenham sido eles que te fizeram como diretor. 

Escrevo para ti, eu, cinema, porque te admiro. Olha lá para fora, Manoel. Vê pela janela o azul do céu. Quem diria, azul. Tantas vezes o gravaste de cinza que parece estranho vê-lo azul. De que cor o vês, Manoel? Hoje vejo-o de negro mas julgo que os outros o vejam de azul; também o gravaste dessa cor e se o gravaste, ele existe.

Mas a vida, claro, termina. A obra do Homem continua e a tua com certeza continuará e seja onde for, em mim será também. Porque me engrandeceste, fizeste e amaste e hoje estou mais pobre. Tenho muitos filmes e Homens mas não te tenho a ti e por isso já sinto saudades tuas. Porquê, Manoel? Provavelmente porque nunca temeste a morte. 

De resto, senta-te na tua cadeira e grita ação! uma última vez. Fá-lo por mim, por favor. E mesmo sendo uma última vez, eu agradeço. Imensamente.

Do Cinema para Manoel de Oliveira
"
Manoel de Oliveira
1908 - 
marshe.ban

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